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Tantas tardes na memória.
Sorrisos, risadas altas, exclamações e sussurros.
Segredos trocados à luz da TV, fotos mostradas entre pequenas histórias.
Vidas passando entre os dedos, formando uma teia entre nós.
Teia que nos tornava unidas, teia que entrelaçava tristezas e alegrias.
Fios que se engrossavam e fortaleciam em curto espaço de tempo,
Temperados pelo poder das confidências, das palavras, dos sentimentos.
Verdades absolutas que se tornavam pó, renovação do espírito em cada novo encontro.
A cada encontro, uma mistura de lágrimas e saudades, de felicidade e de sonhos.
Olhar para trás, pensando no que estava por vir.
Medo do que estava por vir.
Tantas tardes na memória.
Tantas manhãs regadas à pêlos e raios de sol.
Raios luminosos forrando o azul claro do céu dos seus olhos.
Raios que coriscavam furiosos em tempestades, quando contrariada a sua vontade.
Raios que atravessavam distâncias, e corriam velozes para meu coração,
Onde quer que eu estivesse.
Comunhão absoluta, cordas de seda trançando nossas vidas.
As mensagens trocadas todos os dias, várias vezes ao dia, as cartas, os telefonemas sempre tão longos.
Havia tanto a ser dito.
Havia tanto sempre.
Os almoços no pequeno restaurante, as pequenas compras na loja barata, os resgates, o manso desenrolar de uma amizade tão forte.
Os pedaços dos nossos passados se misturando ao farelo das empadas comidas entre histórias.
E como você as contava com tanta graça, leveza e acima de tudo humor.
Esse teu bom humor que fazia com que tivesse quase que uma aura de santidade,
Para os tantos que a amaram.
E foram tantos, tantos...
Embora tão poucos tenham permanecido ao seu lado, quando o pior começou.
Tantas noites na memória.
Pequenas discussões, rasgos logo consertados, pois o mais importante jamais se rasgava:
Respeito, tolerância, compreensão.
Compreensão que buscávamos tanto então, e que só conseguíamos quando entre nossos pares,
Pessoas como nós, que amavam animais quase acima de si mesmas.
Pessoas especialmente abençoadas, mas malvistas por quase todos os que as cercavam,
Vistas como loucas pela imensidão de pequenos e tolos pobres de espírito.
Lembro do quanto isso a deixava revoltada, e ao mesmo tempo extremamente magoada.
Do quanto amava seus irmãos e irmãs, e do quanto te fazia mal saber o quão mal a julgavam.
Julgamento que se fez mais vívido depois da tua partida, quando, mesmo morta, te despojaram de tudo o que tinha de mais importante, de tudo o que havia te sido caro.
Mas quebraram a lembrança do que era físico.
Tua essência e alma são inquebrantáveis.
Ah, que falta que você me faz.
Que falta enorme de tudo o que havia ainda para ver, de tudo o que havia ainda para contar, de tudo o que havia ainda para viver.
De tudo o que você ainda queria fazer, ser, pensar, conhecer.
Que falta enorme das viagens que não fizemos juntas, dos brownies que não dividimos, da visita ao Zôo que nunca fizemos.
Que falta enorme dos biscoitos comidos no café ligeiros, da comida chinesa que adorávamos pedir, e que sempre sobrava no teu prato para agradar um gato.
Que saudade de ver teu sorriso, te encher de elogios e te ouvir me chamar de exagerada.
Que saudade de dizer como eram lindos teus olhos azuis quando você se sentia a mais feia das criaturas.
Que saudade de ouvir tua voz, sotaque paulista que aprendi a amar tanto, e que continuo amando em cada nova amiga que conquisto nestas terras.
Que saudade da tua alegria, e ao mesmo tempo, do teu lado sombrio.
Que saudade dos últimos instantes juntas, lágrimas grossas derramadas num último abraço.
Unicórnio azul pontuando a esperança de um reencontro em outras vidas.
Que saudade enorme de ti.
Que falta que você me faz.