quinta-feira, 20 de novembro de 2008


Um Anjo Entre os Gatos

Era uma tarde em São Paulo, como tantas outras que passei em sua casa. De repente, um telefonema, um pedido de socorro. Três gatinhos recém nascidos haviam sido abandonados, e berravam de fome... A pessoa do outro lado da linha não conseguia alimentá-los. No rosto suave de Inês, estampou-se a preocupação imediatamente. Ela mandou trazê-los, e quando chegaram, ficamos espantadas com seu tamaninho, com sua fragilidade... Eram duas meninas e um menino, elas preta e preta e branca, ele todo branquinho, com jeito de siamês.
Havia uma gata amamentando, uma gata chamada Miriam Miau, que tinha perdido seus filhotes todos, e já havia adotado uma bebê órfã de 45 dias. Inês chamou a gata e mostrou-lhes os filhotes, mas ela não pareceu se interessar, e já ia embora quando Inês lhe disse: "olha, Miriam, Deus trouxe de volta os seus filhinhos..." E, por incrível que isso possa parecer, a gata imediatamente começou a lamber os pequeninos, e os aconchegou junto dela, para que mamassem. Nos olhos de Inês, as lágrimas corriam. Nos meus também, porque estava certa de ter presenciado um milagre. Um verdadeiro milagre de amor.
Dos três filhotinhos, um viria parar na minha casa, no Rio de Janeiro, exatos 40 dias depois. Se chamou Victor, aquele que venceu, e sua madrinha não poderia ser outra senão a própria Inês.
Esse foi apenas um dos momentos que tive a honra e o prazer de presenciar em sua casa, que era conhecida por todos como Lar do Bicho Feliz. Inês era uma pessoa iluminada, um anjo que se dedicava aos animais de corpo e alma. Em sua casa os cegos, defeituosos, enfim, todos os que haviam sido rejeitados, encontravam um lugar seguro, casa, carinho, cuidados. Adotou inúmeros cães e gatos ao longo dos anos, todos tratados como filhos amados, todos castrados, vacinados e saudáveis.
Estar no Lar do Bicho Feliz era uma experiência única, uma novidade a cada instante. Me lembro das tardes de conversas regadas à chá "de pelo de gato", os lanches naquela mesa grande e cercada de amor, com a companhia dos felinos dengosos no colo, das noites em que eu dormia praticamente soterrada pelos corpinhos macios dos gatos, que me aqueciam o corpo e o coração.
Inês tinha muitas histórias, e a chegada dos três gatinhos narrada acima era apenas uma delas. Haviam histórias tristes, como a do gatinho que foi resgatado do CCZ e trouxe consigo uma virose mortal, que levou embora outros sete gatinhos, além dele mesmo. Mas haviam sobretudo histórias alegres, divertidas, cheias de vida e esperança, como a de Carolina, gata tricolor super amorosa resgatada de um bueiro da USP, ou de Lolo, um vovô amarelo e branco que vivia na rua e foi se chegando a custa de muitos carinhos, até o dia em que uma Inês muito feliz o encontrou dentro de casa, dormindo em seu travesseiro.
Onde quer que houvesse um gato em condições de risco, onde quer que houvesse um gato precisando de um lar, uma feira de doação, onde quer que houvesse um felino enjeitado, lá estava Inês, seja ao vivo, seja por e-mail, se dispondo a cuidar dele. Foi assim com a sialata Safira, que nasceu sem as pálpebras, foi assim com a pretinha Corina, que vivia com uma senhora idosa em condições miseráveis e estava com um eventramento, foi assim com Thiago, um gato de Niterói que havia quebrado a mandíbula, foi assim com Minie, siamesa miúda que chegou em sua casa quase morta, por causa de uma piometra. Foi assim com Nino, gatinho carioca que havia perdido uma pata, adotado via internet.
E foi através da internet que pude conhecê-la, e através dela, aumentar meu amor pelos animais, minha compreensão deles e da vida. Conheci Inês em meados de 2000, através da lista de discussão Gatos, e na época fiquei espantada com a quantidade de gatos que ela tinha - 15. Jamais pensaria que em pouco mais de 3 anos eu mesma estaria com muitos mais...
Inês era divertida, alegre, escrevia histórias incríveis de seus gatos, sempre em um português extremamente correto. Era o alívio dos dias de chuva, um raio de sol na poeira da estrada. Inês era muito mais gata que gente, muita mais coração, sentimentos, ternura. Os encontros gateiros que promovia em sua casa eram sempre cheios de surpresas. Em cada um, novos gatos, em cada um, novas histórias, novas emoções. A cada novo encontro entre nós duas, novas aventuras, unindo cada vez mais a carioca e a paulista em uma amizade recheada de sorrisos.
Foi assim em outubro de 2001, quando nos metemos em um resgato em plena avenida Paulista, acompanhadas da amiga Estela, resultando no salvamento de dois gatos que viviam ali em situação de risco, o tigradão Casi e a tigradinha Estela. Foi assim quando paramos em meio a uma avenida movimentada para salvar um cachorrinho de ser atropelado, e levá-lo conosco. Foi assim em uma noite em que avistei um siamês parado exatamente no meio da rua e Inês freou o carro de sopetão para que pudessemos salvá-lo.
Desde o começo de nossa amizade, Inês soube que tinha câncer. Ela já havia passado por isso em 1998, mas desde março de 2001 a doença havia retornado, definhando seu corpo, mas nunca seu espírito. Inês continuava incansável, inesgotável, ajudando, salvando, adotando, dando uma chance de vida aos gatos que provavelmente sem ela hoje estariam mortos. Ajudava as amigas protetoras quando precisavam, ajudava com palavras, com consolo, com carinho. Ajudava os animais mesmo em detrimento de si mesma, ajudava-os com seu espírito generoso.
Muita coisa passamos juntas, a dor da perda da sialata Liz, de PIF, em fevereiro de 2002, a tristeza dos momentos de desespero e dor, a luta quando algum dos bichos ficava doente, a fuga de um cachorrinho recém resgatado. Mas acima de tudo passamos por muitas tardes felizes cercadas pelos bichos, muitos momentos de risos e festa, muitos "sanduíches de pelo de gato", e muitas, mas muitas gargalhadas por causa das gracinhas que eles faziam.
Seu maior tesouro era a balinesa Nikita, filha "que saiu de dentro" dela, mãe dos trigêmeos siameses Huguinho, Zezinho e Luisinho. Nikita, com seus olhos vesgos e muito azuis, era sua grande paixão, sua filha mais amada. Ela veio para o RJ, ficar comigo após sua morte, assim como a gata mais velha de Inês, a Debbie. Nikita, enquanto viveu, foi a lembrança viva do doce sorriso de Inês. Dentro dos seus olhos, via refletidos aquele outro par de olhos azuis, sempre cheios de uma compaixão e de uma energia infinitas.
A história de Inês se mistura aos dos gatos. Ela sempre gostou deles, desde criança. Talvez por ter sido uma pessoa tão cheia de amor à vida, tão otimista, tão cheia de alegria, ela tenha se tornado há muito tempo um anjo entre eles. Um anjo que agora está nos campos do céu, ao lado do Grande Gato, com certeza cercada dos animais que tanto amou em vida. Um anjo que estará de braços dados com São Francisco, olhando pelos que sofrem aqui embaixo... Para sempre Inesquecível.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Sim, sigamos em frente,
Ousando mais, nos mostrando mais,
Dando a cara pra bater, cantando na chuva,
Entregues ao intenso frenesi da primavera,
Inebriados com o puro prazer de viver.

Sim, sigamos em frente,
Sem desprezar o passado, sem jogar fora as memórias,
Mas reciclando nossos sentimentos, reavaliando emoções,
Deixando na poeira os laços desfeitos,
As ilusões derrotadas.

Sim, sigamos em frente,
Sem máscaras, sem temores,
Sem fazermos da tristeza um show de horrores,
Com todo o nosso maquiavelismo prático,
Carregando no bolso apenas o que é importante.

Sim, sigamos em frente,
Mas não venha me trazer palavras vazias,
Destituídas de sentido, ocas de significado,
Frágeis castelos de cartas,
Apenas ruínas desoladas.

Quero, preciso, anseio pela verdade absoluta,
Pelo amor que apenas é, sem exibições inúteis,
Sem devaneios vãos, sem artificialidades.
Amor que palpita liberdade, que transpira coloridas faces,
Delicadamente envolto em fina tecelagem.

Quero, preciso, anseio por amizades inextingüíveis,
Regadas na doçura do dia-a-dia, na complicada teia das lágrimas,
Sólidas mesmo depois de um saco de sal compartilhado,
Amizades decididamente fortes, amavelmente construídas
Na confiança mútua e na incondicionalidade.

Quero, preciso, anseio pelo sabor agridoce da vida,
Pelo espetáculo das paixões e mortes,
Arrebentação de delícias e loucuras tantas,
Pelo belo e fatídico teatro das emoções humanas,
Esperançoso palco onde se desenrolará a minha trama.
Um amigo de verdade não diz amém a tudo que você faz, nem compactua com os seus erros.
Amigo de verdade é aquele que te ama tanto que, mesmo com o coração sangrando, ainda consegue tentar te fazer enxergar a verdade, e não tem medo de atirá-la na sua cara, se souber que é necessário.
Um amigo de verdade não é aquele que está ao seu lado o tempo inteiro, que te paparica sem cessar e que está presente apenas por obrigação.
Amigo de verdade é aquele que sempre está presente dentro de você, uma presença viva mesmo que ausente, uma memória doce e suave, terna e delicada.
Amizades verdadeiras são eternas e inesquecíveis, e permanecem dentro da gente por mais que a tempestade sobrevenha e o tempo passe.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã"

Eis a frase na qual sempre acreditei, e que sempre usei como diretiva, como guia, como lembrança de como deveria agir em relação a quem me cercava.
É bem certo que em alguns momentos de revolta e desânimo me esqueci dela, ou a deixei de lado, ignorando o fato de que ninguém consegue ser feliz sozinho.
Inês em 2001 me dizia que "amor só é amor quando é doado, é compartilhado, é atirado como uma bala perdida".
Eu, naqueles tempos, era apenas uma menina não crescida de 31 anos, que não sabia praticamente nada da vida.
Não entendia com exatidão o quanto é gratificante amar as pessoas do jeito que elas são. Eu já as amava incondicionalmente, é bem verdade, mas não entendia o quanto isso era ou seria importante na minha vida. E não conseguia conviver bem com pessoas que não me eram simpáticas logo à primeira vista.
Olhando para trás, parece mentira que eu fosse assim... Parece mentira a minha incapacidade de lidar com as diferenças, com os problemas de cada um, com aqueles que pareciam inconquistáveis, desagradáveis, ou fora dos padrões normais que me norteavam.
Foi com Inês que tudo começou a mudar.
Foi com ela que aprendi que as aparências enganam, que o desequilíbrio pode ser mais sensato que o equilíbrio, que é possível amar as pessoas por inteiro, com suas dores e mágoas, com seus intrincamentos próprios, com suas doçuras e amarguras secretas, que é possível enxergar um mundo oculto aos olhos, que é possível e necessário amá-las como verdadeiramente são, mais ainda - amá-las exatamente porque são como são.
Desde então, quantas conquistas, quantas descobertas, quanto amor compartilhado, quantos sonhos divididos, quantas lágrimas consoladas, quantas alegrias encontradas... Quanta riqueza nas pequenas coisas, quantos momentos de felicidade, quanto prazer de viver...
Porque viver transcende a simples experiência sensorial do dia-a-dia, viver vai além do palpável e do visível, viver vai além do arroz com feijão, do dois mais dois são quatro. Viver, para mim, se tornou de um valor inestimável. Principalmente o viver acompanhada. Principalmente acompanhada por pessoas que se tornaram imprescindíveis. Ou que eu tornei imprescindíveis.

Bela eternidade a dos momentos felizes, a dos momentos trágicos, porém sombreados de amor.
Belo o sentimento de tão grande irmandade, gerado pela compreensão irrestrita das motivações alheias.

Minha missão, segundo Inês, em mensagem de 2002: "acreditar nas pessoas, dar uma chance àqueles que são incompreendidos, e amá-los, para que eles também tenham sua reserva de amor no coração, e possam sair por aí repartindo suas coisas boas."

É tudo que tenho tentado. É tudo que tenho feito. E é tudo que, surpreendentemente, mais me faz feliz. A felicidade não se compra... It's a wonderful life !!!
O retorno, o repuxo, o caminho reverso.
O outro lado da moeda, a outra face da medalha.
A trilha oculta nas sombras, à margem das árvores douradas.
Assim vou andando pelo mundo, estranho mundo de estranhas pessoas,
Estranhos pensamentos limitados, cabendo todos dentro de um mesmo esquadro.