quarta-feira, 25 de junho de 2008

Se tendes medo de por abaixo os muros
Se o frio do pavor lhe freia os sentidos
Se sentes a mão pesada do destino
Aprisionando seus caminhos com sentenças imutáveis
Ah, companheiro !!! Estás perdido. Estás definitivamente perdido
No abismo da segurança eterna
Mergulhado para sempre no conforto sereno da mesmice
Nas águas paradas das certezas que jamais se abalam.
Desconstruir é preciso, sim, viver também é preciso.
Viver só se torna possível
Da maneira mais plena e deleitosa
Se a coragem nos impele a fazer cair por terra
Todas as máscaras, todas as certezas, todas as verdades
Absolutas que nos norteiam o pensamento.
Pois que seguir sempre o mesmo rumo é seguro,
É sólido, é tranqüilo,
Mas ao mesmo tempo nos mantém
Cativos eternos da monotonia.
E é essa mesma monotonia e calma,
Essa mesma serena forma sempre igual de viver
Que nos traz a morte ainda em vida,
O pesar dos atos não cometidos,
A derrocada definitiva dos sonhos,
Dos anseios, da esperança.
Que resta mais a esperar
Se a vida já se mostra tão perfeita ?
Que resta mais a sonhar
Se aparentemente tudo possuímos ?
Não, desconstruir é preciso.
Demolir é preciso.
Arrancar as folhas mortas,
Varrer para sempre a poeira do tempo.
Tornar-se árvore nua, mas de grossa e firmes raízes.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Kaos.
Confusão.
Momentâneo desnorteio.
Indecisão quanto aos sentimentos e certezas.
O mundo oscila, em velocidade vertiginosa.
Caem os castelos de cartas, espalham-se no ar.
A vida se fragmenta, se fatia, se perde e se desconstrói.
Momento incerto, inseguro, dias de vendaval.
Nada é como parece, nada é o que parece... Tudo é ilusão e bruma.
Em meio às sombras me perco, em meio às sombras me engano.
Erro o caminho, tateando no escuro.
Erro o alvo, erro o julgamento, errôneas percepções.
Balança em fúria louca tudo o que havia conhecido.
Sacodem-se desabaladamente todas as verdades.
A decepção torna-se ela mesma uma ilusão.
O medo e o fracasso tornam-se poeira cósmica.
A solidão se cria em meio ao caos,
Amparada pela imensa sensação de desamparo.
Tudo o que era sólido se desfaz no ar.

domingo, 15 de junho de 2008

Quando eu morrer
Que não haja lágrimas a correr,
Mas sim o som cristalino
De muitas risadas.

Quando eu morrer
Espero que a chuva caia serena
E lave de forma abençoada
A terra onde eu estiver.

Quando eu morrer
Quero que me plantem uma roseira
De belas rosas vermelhas
Rubras da paixão que abrigo em mim.

Quando eu morrer
Que eu tenha deixado sementes
Sementes de amor, de paz, de esperança
Em cada coração que conquistei.

Quando eu morrer
Que eu seja lembrada
Não como alguém que se foi,
Mas como uma presença que ficou.

Quando eu morrer
Não quero me desintegrar
Quero virar estrela
E brilhar para sempre.

sábado, 14 de junho de 2008

As lágrimas, novamente as lágrimas.
Rolando grossas, salgadas e abundantes sobre a face.
Lágrimas do sentimento de abandono, de inquietude,
De exaustiva e solitária angústia.
Tudo o que eu não precisava era estar sozinha hoje.
Não hoje, não nesse momento de incerteza,
De estranhamento, de dor, de sentimentos tão confusos.
Mas o mundo infelizmente não abunda em sensibilidade.
Antigamente eu me perguntava como era possível que alguém chegasse a um limite extremo de desespero e dor sem que ninguém percebesse.
Me perguntava se era possível que não houvessem sinais externos, que não existissem pistas.
Hoje sei que por mais que você dê as pistas, mostre o mapa, sinalize e aponte em neon, a verdade é que ninguém percebe.
Me interessava saber como alguém conseguia se atirar da janela de um prédio sem que ninguém desconfiasse das suas intenções.
Hoje sei que é muito mais cabível que ninguém, absolutamente ninguém, desconfie.
As pessoas se fecham nelas mesmas, e não enxergam mais nada ao seu redor.
Se ocultam em suas conchas, se trancam em seus pequenos mundos e nada mais lhes importa, senão suas próprias histórias, seus próprios problemas e suas próprias dores.
A dor do outro não lhes interessa. O sentimento do outro não lhes diz respeito.
Diálogos típicos:

"- Hoje estou péssima.
- A-ham. Hum. Você não sabe o que me aconteceu hoje !"

( não sei nem me interessa, mas se você esperar eu tomar esse copo de cicuta terei prazer em saber )

"- Ando meio deprimida.
- Ah, tá. Escuta, o que dou pro meu gato, ele está meio resfriado..."

( sorte que amo gatos, senão a resposta seria: que morra !!! Daí aproveito e vou junto )

"-Às vezes eu queria sumir.
- Ah, para de falar besteira. Que tal irmos lanchar ?"

( realmente, sou uma besta em te contar isso, e comida cura tudo. A atenção de uma amiga naturalmente não teria o mesmo efeito )

Triste constatar que essa é a regra geral no mundo em que vivemos.
Triste perceber que essa é a regra geral no nosso mundo, aquele formado pelas pessoas que amamos e com as quais convivemos.
Mais triste ainda saber que, por mais que você sangre por dentro até a morte, ninguém irá lhe socorrer.
Não vai aparecer ninguém para estender a mão. Ninguém para se preocupar... Simplesmente porque ninguém consegue enxergar o que se passa.
As pessoas, mesmo as mais amadas, não conseguem olhar além de seus próprios umbigos.
Estão sempre preocupadas com suas próprias vidas. Estão sempre se priorizando em detrimento de qualquer outra coisa, priorizando-se em todos os minutos, todos os dias, todos os anos.
Estão sempre sem tempo para ouvir com o coração e para aconselhar com a alma.
Estão sempre distantes demais para poder ver além das aparências, além dos sorrisos, além da voz ao telefone.
Sim, eu sou uma estrangeira nesse mundo.
E a inutilidade de escrever o que escrevo é imensa - ninguém jamais lerá mesmo.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O treze
O tudo, o belo
O maravilhoso, o mágico
O sereno, o poderoso
A misteriosa perfeição
A sintonia, a completude
O recomeço, o despertar
A transformação
O início de um novo ciclo
O renascimento
A transmutação.
A vida é assim, chegada e partida.
Partidas inesperadas, que nos cortam o ar e nos tiram o chão.
Partidas que não esperamos, que não desejamos, que jamais sonhamos.
Partidas bruscas, incisivas, que rasgam o véu do mundo real.
Partidas com as quais não contamos, que viram tudo do avesso - e fica tudo fora do lugar.
Partidas que estranhamente aproximam as pessoas, as tornam mais unidas.
Partidas que apesar de dolorosas nos tornam mais humanos.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Tantas tardes na memória.
Sorrisos, risadas altas, exclamações e sussurros.
Segredos trocados à luz da TV, fotos mostradas entre pequenas histórias.
Vidas passando entre os dedos, formando uma teia entre nós.
Teia que nos tornava unidas, teia que entrelaçava tristezas e alegrias.
Fios que se engrossavam e fortaleciam em curto espaço de tempo,
Temperados pelo poder das confidências, das palavras, dos sentimentos.
Verdades absolutas que se tornavam pó, renovação do espírito em cada novo encontro.
A cada encontro, uma mistura de lágrimas e saudades, de felicidade e de sonhos.
Olhar para trás, pensando no que estava por vir.
Medo do que estava por vir.
Tantas tardes na memória.
Tantas manhãs regadas à pêlos e raios de sol.
Raios luminosos forrando o azul claro do céu dos seus olhos.
Raios que coriscavam furiosos em tempestades, quando contrariada a sua vontade.
Raios que atravessavam distâncias, e corriam velozes para meu coração,
Onde quer que eu estivesse.
Comunhão absoluta, cordas de seda trançando nossas vidas.
As mensagens trocadas todos os dias, várias vezes ao dia, as cartas, os telefonemas sempre tão longos.
Havia tanto a ser dito.
Havia tanto sempre.
Os almoços no pequeno restaurante, as pequenas compras na loja barata, os resgates, o manso desenrolar de uma amizade tão forte.
Os pedaços dos nossos passados se misturando ao farelo das empadas comidas entre histórias.
E como você as contava com tanta graça, leveza e acima de tudo humor.
Esse teu bom humor que fazia com que tivesse quase que uma aura de santidade,
Para os tantos que a amaram.
E foram tantos, tantos...
Embora tão poucos tenham permanecido ao seu lado, quando o pior começou.
Tantas noites na memória.
Pequenas discussões, rasgos logo consertados, pois o mais importante jamais se rasgava:
Respeito, tolerância, compreensão.
Compreensão que buscávamos tanto então, e que só conseguíamos quando entre nossos pares,
Pessoas como nós, que amavam animais quase acima de si mesmas.
Pessoas especialmente abençoadas, mas malvistas por quase todos os que as cercavam,
Vistas como loucas pela imensidão de pequenos e tolos pobres de espírito.
Lembro do quanto isso a deixava revoltada, e ao mesmo tempo extremamente magoada.
Do quanto amava seus irmãos e irmãs, e do quanto te fazia mal saber o quão mal a julgavam.
Julgamento que se fez mais vívido depois da tua partida, quando, mesmo morta, te despojaram de tudo o que tinha de mais importante, de tudo o que havia te sido caro.
Mas quebraram a lembrança do que era físico.
Tua essência e alma são inquebrantáveis.
Ah, que falta que você me faz.
Que falta enorme de tudo o que havia ainda para ver, de tudo o que havia ainda para contar, de tudo o que havia ainda para viver.
De tudo o que você ainda queria fazer, ser, pensar, conhecer.
Que falta enorme das viagens que não fizemos juntas, dos brownies que não dividimos, da visita ao Zôo que nunca fizemos.
Que falta enorme dos biscoitos comidos no café ligeiros, da comida chinesa que adorávamos pedir, e que sempre sobrava no teu prato para agradar um gato.
Que saudade de ver teu sorriso, te encher de elogios e te ouvir me chamar de exagerada.
Que saudade de dizer como eram lindos teus olhos azuis quando você se sentia a mais feia das criaturas.
Que saudade de ouvir tua voz, sotaque paulista que aprendi a amar tanto, e que continuo amando em cada nova amiga que conquisto nestas terras.
Que saudade da tua alegria, e ao mesmo tempo, do teu lado sombrio.
Que saudade dos últimos instantes juntas, lágrimas grossas derramadas num último abraço.
Unicórnio azul pontuando a esperança de um reencontro em outras vidas.
Que saudade enorme de ti.
Que falta que você me faz.

domingo, 8 de junho de 2008

Difícil conseguir extirpar uma parte do seu passado.
Difícil banir de sua vida em definitivo algumas pessoas.
Hoje a lembrança veio forte, inesperada, desesperada,
Transformada em lágrimas que não paravam de cair.
Lágrimas de saudade, de tristeza, de um desesperado sentimento de urgência.
Estava sem pensar em nada, e de repente, como um furacão,
A força da lembrança me arrebatou,
Enchendo meus olhos de gotas salgadas,
Tremendo minhas mãos, abalando minhas certezas,
Deixando meu coração no chão,
Arrasado, devastado, apavoradamente sufocado.
Como matar o que não quer morrer ?
Como destruir o que se fez indestrutível ?
Como seguir fingindo ignorar o que é tão forte, tão inabalável,
O que não se consegue apagar da memória ?
Não, não sei se quero que se apague,
Não sei mais se quero que sufoque,
Não sei mais se quero por abaixo tudo o que sentia,
Não sei mais se quero a dor do afastamento, a máscara da indiferença...
Não sei mais se quero ser quem sou.
A luta contra o mal.
Lutar contra aquilo que mal se conhece.
Lutar contra o desconhecido conhecido que vem de dentro de nós.
Lutar contra a incompreensão, as palavras que ferem como fogo.
Lutar a infinita luta pela vida.
Batalhas sombrias, batalhas amargas.
Batalhas de morte inglória, batalhas de tantas glórias.
Guerreiras somos, guerreiras despertas pela força da fúria,
Pelo poder do fogo, pelo aço e pela chuva.
Guerreiras que deixam cair lágrimas sólidas, amargas, lágrimas escondidas
Na solidão da madrugada.
Lágrimas que rolam queimando a face como o fogo do dragão.
Ah, o dragão...
Sempre um em cada virada do caminho, dragões a cada curva da estrada.
Mas guerreiras somos, guerreiras meninas...
Guerreiras que de mãos dadas caminham
Em estradas separadas
Unidas pela poeira das estrelas.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O ar de superioridade estúpida de algumas pessoas me irrita profundamente.
O se achar acima de tudo e de todos, o se achar o melhor dos melhores, o se achar o único ser pensante do universo.
O se colocar na posição de estátua de deus intocável, o se achar dono da verdade.
O não aceitar outras verdades, o não entender o pensamento alheio.
E acima de tudo a não compreensão da dimensão e grandeza de cada vida que o circunda.
O ar de falsa inteligência, de falsa virtude, a hipocrisia e a demagogia.
A falta de empatia com as pessoas, a falta de compaixão com quem sofre, a falta de amor ao próximo.
A falta de humanidade, o distanciamento das misérias do mundo,
A futilidade, a mesquinharia, a imbecilidade de manter as aparências.
O estranho hábito de cultivar tudo o que é aparente, mundano e passageiro.
O privilegiar o conteúdo à forma, o distanciamento do que nos torna mais humanos.
A pedra no lugar do coração.

Um sonho estranho.
Nele, crio uma serpente, encontrada ferida e sozinha no mato.
Cuido dela, crio, ela me tem afeição verdadeira e jamais me morderá.
Mas a serpente dá crias, e as crias não me tem o mesmo amor nem a mesma gratidão. Atacam sem piedade, sou obrigada a me defender.
Que sentido teria isso ?
Só consigo pensar no ditado espanhol:

Cria cuervos e te sacarán los ojos

Cria corvos, e estes te arrancarão os olhos.
Resta saber quem são os corvos.
E a serpente original.
Há pessoas que você conhece a vida toda e não te dizem nada.
Há outras que você acaba de conhecer e já te dizem tudo, são almas que se tocam, mundos que se completam.
Há pessoas que você tenta desesperadamente gostar um pouquinho que seja, e não consegue.
Há outras que você não precisa fazer o menor esforço, quando vê já está conquistada.
Há pessoas com as quais dividimos nosso espaço há anos, mas nunca se tornam importantes na nossa vida.
Há outras que mal chegam ocupam todos os espaços, inclusive dentro do nosso coração.
Há pessoas que fundamentam, que lançam bases e depois se perdem no tempo.
E há as que são fundamentais e essenciais para a vida inteira, fazendo-se presentes todos os dias.

segunda-feira, 2 de junho de 2008


Duas grandes amigas, duas grandes lições.
Com uma, aprendi que só se deve amar e entregar seu coração a alguém depois de se ter dividido um saco de sal. Sim, porque dividir o bolo delicioso e doce é fácil, dividir os momentos de alegria, prosperidade e festa também. Mas dividir o sal que racha os lábios e resseca a garganta não é para qualquer um, assim como não é qualquer um que permanece ao nosso lado nos piores momentos, quando o chão parece se abrir e o desespero ameaça tomar conta.
Com outra, aprendi o paradoxo das prioridades, a enxergar a real necessidade e o que é verdadeiramente mais importante. Aprendi que mesmo sem ter um tostão sequer no bolso é possível socorrer um amigo, abrigar um animal, realizar um sonho... Mesmo tendo que, para isso, abrir mão de pagar uma dívida, de viajar pelo mundo, de um dia de lazer. Aprendi a dar importância ao que realmente é importante: a vida. Aprendi que nada é mais fundamental do que o amor que se tem, o conforto de um sorriso, o prazer da companhia de quem se ama.
E com esses dois pilares, tenho tentado seguir, lembrando sempre que o caminho é cheio de armadilhas e ilusões, mas também é marcado pela presença de incontáveis minutos de felicidade, basta saber aproveitar.
Vamos comemorar a lavagem dos confins da alma
A lavagem que empurra para longe as falsas amizades,
Os falsos testemunhos, os castelos de cartas, as ilusões perversas.
Vamos atirar ao mar a mesquinharia e a prepotência,
A incompreensão, a mesmice e a demência.
Vamos jogar fora tudo aquilo que arranha como um espinho incômodo,
Todos aqueles que nos fazem mal, todo o mal que nos fizeram.
Vamos deixar na rua a amargura, as frustrações da vida,
A impotência, a desilusão e o orgulho ferido.
Vamos esquecer as injustiças, despejar no lixo o que é dejeto,
Tirar do nosso peito toda a maldade humana e a falta de afeto,
Quem não nos merece, quem nos desmerece, quem nos julga pelas aparências,
Pelas posses, pela linguagem, quem não privilegia o conteúdo e sim a forma.
Tolos são, malditos sejam, esquecidos para todo o sempre, pelo resto de nossos dias.
Vamos deixar a alma limpa, clara como a luz do amanhecer.
Esquecer quem fomos, nos unir aos bons, reconstruir os sonhos.
Viver o hoje, o agora, deixar para trás o que passou, só dar valor a quem de fato merecer.

Hoje contemplei o nada
Vestido de suave pelagem cinzenta.
Hoje contemplei o nada em sua dimensão mais cruel:
O fim daquilo que há bem pouco era tudo.
O nada avassalador que esvazia os corpos,
Que elimina o bater do coração e a vivacidade da alma.
O nada que gela o sangue nas veias,
O nada que congela o nosso próprio coração ao ser contemplado,
E que o atravessa como um punhal.
O nada ali estendido, em sua frágil condição de ser que já não é.
O vazio absoluto, o caos, a imensidão negra.
Inexplicável, devastador, definitivo.
O nada que toma estranha vida nova, nas lágrimas, nos lamentos,
O nada que se incorpora ao nosso corpo como uma sombra,
Um desgostoso parasita que finca suas unhas no peito,
E aperta com sua teia todos os nossos sentidos.
Eu vi a cara da morte e ela estava viva.
Annya parou de repente, e olhou o mundo ao seu redor.Tanta violência e guerra, tanto desespero, tantas mortes sem sentido.Tantas vidas desperdiçadas. Tantas lágrimas, tantas tristezas, tanta maldade. Em cada esquina, o crime acontecendo. Em cada parque o abandono de centenas de animais. Em cada minuto, uma infinita possibilidade de novos desesperos.Sentiu-se subitamente sem fôlego. De que adiantava viver em um mundo assim ? De que servia estar viva e ter um coração dotado de sensibilidade e capacidade de amar ? Para quê ? Apenas para sofrer mais ? E era um sentimento tão solitário... Todos estavam ocupados demais com suas próprias vidas, ninguém olhava para os lados. Ninguém a entendia, nem mesmo seus amigos, nem mesmo sua família. Chamavam-na de sonhadora, visionária, louca. Diziam-lhe que era pura perda de tempo se preocupar. Que eram sem sentido e inúteis seus esforços. Annya não se importava com a incompreensão ou com as críticas. Estava acostumada. Mas se sentia profundamente incomodada com a falta que lhe fazia ter ao lado alguém com os mesmos ideais, a mesma paixão, a mesma sensibilidade, a mesma capacidade de amar sem limites. Sentia todo o peso do seu trabalho solitário. Sentia, como o poeta, ter apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Sentimento do qual obviamente não dava conta. Suas mãos eram muito pequenas, e o mundo imensamente grande e cheio demais de incertezas e de pesares. Annya sentia-se sem chão.
Duas mãos são realmente muito pouco para suportar o mundo... Mas algumas mãos, quando unidas, têm poderes inimagináveis. Tornam não só mais fácil caminhar e lutar contra o lado ruim da vida, como também suavizam as dores inevitáveis que surgem: perdas, tristezas, decepções... Nossas mãos, UNIDAS, podem muito. Podem até o improvável.