quinta-feira, 20 de novembro de 2008


Um Anjo Entre os Gatos

Era uma tarde em São Paulo, como tantas outras que passei em sua casa. De repente, um telefonema, um pedido de socorro. Três gatinhos recém nascidos haviam sido abandonados, e berravam de fome... A pessoa do outro lado da linha não conseguia alimentá-los. No rosto suave de Inês, estampou-se a preocupação imediatamente. Ela mandou trazê-los, e quando chegaram, ficamos espantadas com seu tamaninho, com sua fragilidade... Eram duas meninas e um menino, elas preta e preta e branca, ele todo branquinho, com jeito de siamês.
Havia uma gata amamentando, uma gata chamada Miriam Miau, que tinha perdido seus filhotes todos, e já havia adotado uma bebê órfã de 45 dias. Inês chamou a gata e mostrou-lhes os filhotes, mas ela não pareceu se interessar, e já ia embora quando Inês lhe disse: "olha, Miriam, Deus trouxe de volta os seus filhinhos..." E, por incrível que isso possa parecer, a gata imediatamente começou a lamber os pequeninos, e os aconchegou junto dela, para que mamassem. Nos olhos de Inês, as lágrimas corriam. Nos meus também, porque estava certa de ter presenciado um milagre. Um verdadeiro milagre de amor.
Dos três filhotinhos, um viria parar na minha casa, no Rio de Janeiro, exatos 40 dias depois. Se chamou Victor, aquele que venceu, e sua madrinha não poderia ser outra senão a própria Inês.
Esse foi apenas um dos momentos que tive a honra e o prazer de presenciar em sua casa, que era conhecida por todos como Lar do Bicho Feliz. Inês era uma pessoa iluminada, um anjo que se dedicava aos animais de corpo e alma. Em sua casa os cegos, defeituosos, enfim, todos os que haviam sido rejeitados, encontravam um lugar seguro, casa, carinho, cuidados. Adotou inúmeros cães e gatos ao longo dos anos, todos tratados como filhos amados, todos castrados, vacinados e saudáveis.
Estar no Lar do Bicho Feliz era uma experiência única, uma novidade a cada instante. Me lembro das tardes de conversas regadas à chá "de pelo de gato", os lanches naquela mesa grande e cercada de amor, com a companhia dos felinos dengosos no colo, das noites em que eu dormia praticamente soterrada pelos corpinhos macios dos gatos, que me aqueciam o corpo e o coração.
Inês tinha muitas histórias, e a chegada dos três gatinhos narrada acima era apenas uma delas. Haviam histórias tristes, como a do gatinho que foi resgatado do CCZ e trouxe consigo uma virose mortal, que levou embora outros sete gatinhos, além dele mesmo. Mas haviam sobretudo histórias alegres, divertidas, cheias de vida e esperança, como a de Carolina, gata tricolor super amorosa resgatada de um bueiro da USP, ou de Lolo, um vovô amarelo e branco que vivia na rua e foi se chegando a custa de muitos carinhos, até o dia em que uma Inês muito feliz o encontrou dentro de casa, dormindo em seu travesseiro.
Onde quer que houvesse um gato em condições de risco, onde quer que houvesse um gato precisando de um lar, uma feira de doação, onde quer que houvesse um felino enjeitado, lá estava Inês, seja ao vivo, seja por e-mail, se dispondo a cuidar dele. Foi assim com a sialata Safira, que nasceu sem as pálpebras, foi assim com a pretinha Corina, que vivia com uma senhora idosa em condições miseráveis e estava com um eventramento, foi assim com Thiago, um gato de Niterói que havia quebrado a mandíbula, foi assim com Minie, siamesa miúda que chegou em sua casa quase morta, por causa de uma piometra. Foi assim com Nino, gatinho carioca que havia perdido uma pata, adotado via internet.
E foi através da internet que pude conhecê-la, e através dela, aumentar meu amor pelos animais, minha compreensão deles e da vida. Conheci Inês em meados de 2000, através da lista de discussão Gatos, e na época fiquei espantada com a quantidade de gatos que ela tinha - 15. Jamais pensaria que em pouco mais de 3 anos eu mesma estaria com muitos mais...
Inês era divertida, alegre, escrevia histórias incríveis de seus gatos, sempre em um português extremamente correto. Era o alívio dos dias de chuva, um raio de sol na poeira da estrada. Inês era muito mais gata que gente, muita mais coração, sentimentos, ternura. Os encontros gateiros que promovia em sua casa eram sempre cheios de surpresas. Em cada um, novos gatos, em cada um, novas histórias, novas emoções. A cada novo encontro entre nós duas, novas aventuras, unindo cada vez mais a carioca e a paulista em uma amizade recheada de sorrisos.
Foi assim em outubro de 2001, quando nos metemos em um resgato em plena avenida Paulista, acompanhadas da amiga Estela, resultando no salvamento de dois gatos que viviam ali em situação de risco, o tigradão Casi e a tigradinha Estela. Foi assim quando paramos em meio a uma avenida movimentada para salvar um cachorrinho de ser atropelado, e levá-lo conosco. Foi assim em uma noite em que avistei um siamês parado exatamente no meio da rua e Inês freou o carro de sopetão para que pudessemos salvá-lo.
Desde o começo de nossa amizade, Inês soube que tinha câncer. Ela já havia passado por isso em 1998, mas desde março de 2001 a doença havia retornado, definhando seu corpo, mas nunca seu espírito. Inês continuava incansável, inesgotável, ajudando, salvando, adotando, dando uma chance de vida aos gatos que provavelmente sem ela hoje estariam mortos. Ajudava as amigas protetoras quando precisavam, ajudava com palavras, com consolo, com carinho. Ajudava os animais mesmo em detrimento de si mesma, ajudava-os com seu espírito generoso.
Muita coisa passamos juntas, a dor da perda da sialata Liz, de PIF, em fevereiro de 2002, a tristeza dos momentos de desespero e dor, a luta quando algum dos bichos ficava doente, a fuga de um cachorrinho recém resgatado. Mas acima de tudo passamos por muitas tardes felizes cercadas pelos bichos, muitos momentos de risos e festa, muitos "sanduíches de pelo de gato", e muitas, mas muitas gargalhadas por causa das gracinhas que eles faziam.
Seu maior tesouro era a balinesa Nikita, filha "que saiu de dentro" dela, mãe dos trigêmeos siameses Huguinho, Zezinho e Luisinho. Nikita, com seus olhos vesgos e muito azuis, era sua grande paixão, sua filha mais amada. Ela veio para o RJ, ficar comigo após sua morte, assim como a gata mais velha de Inês, a Debbie. Nikita, enquanto viveu, foi a lembrança viva do doce sorriso de Inês. Dentro dos seus olhos, via refletidos aquele outro par de olhos azuis, sempre cheios de uma compaixão e de uma energia infinitas.
A história de Inês se mistura aos dos gatos. Ela sempre gostou deles, desde criança. Talvez por ter sido uma pessoa tão cheia de amor à vida, tão otimista, tão cheia de alegria, ela tenha se tornado há muito tempo um anjo entre eles. Um anjo que agora está nos campos do céu, ao lado do Grande Gato, com certeza cercada dos animais que tanto amou em vida. Um anjo que estará de braços dados com São Francisco, olhando pelos que sofrem aqui embaixo... Para sempre Inesquecível.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Sim, sigamos em frente,
Ousando mais, nos mostrando mais,
Dando a cara pra bater, cantando na chuva,
Entregues ao intenso frenesi da primavera,
Inebriados com o puro prazer de viver.

Sim, sigamos em frente,
Sem desprezar o passado, sem jogar fora as memórias,
Mas reciclando nossos sentimentos, reavaliando emoções,
Deixando na poeira os laços desfeitos,
As ilusões derrotadas.

Sim, sigamos em frente,
Sem máscaras, sem temores,
Sem fazermos da tristeza um show de horrores,
Com todo o nosso maquiavelismo prático,
Carregando no bolso apenas o que é importante.

Sim, sigamos em frente,
Mas não venha me trazer palavras vazias,
Destituídas de sentido, ocas de significado,
Frágeis castelos de cartas,
Apenas ruínas desoladas.

Quero, preciso, anseio pela verdade absoluta,
Pelo amor que apenas é, sem exibições inúteis,
Sem devaneios vãos, sem artificialidades.
Amor que palpita liberdade, que transpira coloridas faces,
Delicadamente envolto em fina tecelagem.

Quero, preciso, anseio por amizades inextingüíveis,
Regadas na doçura do dia-a-dia, na complicada teia das lágrimas,
Sólidas mesmo depois de um saco de sal compartilhado,
Amizades decididamente fortes, amavelmente construídas
Na confiança mútua e na incondicionalidade.

Quero, preciso, anseio pelo sabor agridoce da vida,
Pelo espetáculo das paixões e mortes,
Arrebentação de delícias e loucuras tantas,
Pelo belo e fatídico teatro das emoções humanas,
Esperançoso palco onde se desenrolará a minha trama.
Um amigo de verdade não diz amém a tudo que você faz, nem compactua com os seus erros.
Amigo de verdade é aquele que te ama tanto que, mesmo com o coração sangrando, ainda consegue tentar te fazer enxergar a verdade, e não tem medo de atirá-la na sua cara, se souber que é necessário.
Um amigo de verdade não é aquele que está ao seu lado o tempo inteiro, que te paparica sem cessar e que está presente apenas por obrigação.
Amigo de verdade é aquele que sempre está presente dentro de você, uma presença viva mesmo que ausente, uma memória doce e suave, terna e delicada.
Amizades verdadeiras são eternas e inesquecíveis, e permanecem dentro da gente por mais que a tempestade sobrevenha e o tempo passe.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

"É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã"

Eis a frase na qual sempre acreditei, e que sempre usei como diretiva, como guia, como lembrança de como deveria agir em relação a quem me cercava.
É bem certo que em alguns momentos de revolta e desânimo me esqueci dela, ou a deixei de lado, ignorando o fato de que ninguém consegue ser feliz sozinho.
Inês em 2001 me dizia que "amor só é amor quando é doado, é compartilhado, é atirado como uma bala perdida".
Eu, naqueles tempos, era apenas uma menina não crescida de 31 anos, que não sabia praticamente nada da vida.
Não entendia com exatidão o quanto é gratificante amar as pessoas do jeito que elas são. Eu já as amava incondicionalmente, é bem verdade, mas não entendia o quanto isso era ou seria importante na minha vida. E não conseguia conviver bem com pessoas que não me eram simpáticas logo à primeira vista.
Olhando para trás, parece mentira que eu fosse assim... Parece mentira a minha incapacidade de lidar com as diferenças, com os problemas de cada um, com aqueles que pareciam inconquistáveis, desagradáveis, ou fora dos padrões normais que me norteavam.
Foi com Inês que tudo começou a mudar.
Foi com ela que aprendi que as aparências enganam, que o desequilíbrio pode ser mais sensato que o equilíbrio, que é possível amar as pessoas por inteiro, com suas dores e mágoas, com seus intrincamentos próprios, com suas doçuras e amarguras secretas, que é possível enxergar um mundo oculto aos olhos, que é possível e necessário amá-las como verdadeiramente são, mais ainda - amá-las exatamente porque são como são.
Desde então, quantas conquistas, quantas descobertas, quanto amor compartilhado, quantos sonhos divididos, quantas lágrimas consoladas, quantas alegrias encontradas... Quanta riqueza nas pequenas coisas, quantos momentos de felicidade, quanto prazer de viver...
Porque viver transcende a simples experiência sensorial do dia-a-dia, viver vai além do palpável e do visível, viver vai além do arroz com feijão, do dois mais dois são quatro. Viver, para mim, se tornou de um valor inestimável. Principalmente o viver acompanhada. Principalmente acompanhada por pessoas que se tornaram imprescindíveis. Ou que eu tornei imprescindíveis.

Bela eternidade a dos momentos felizes, a dos momentos trágicos, porém sombreados de amor.
Belo o sentimento de tão grande irmandade, gerado pela compreensão irrestrita das motivações alheias.

Minha missão, segundo Inês, em mensagem de 2002: "acreditar nas pessoas, dar uma chance àqueles que são incompreendidos, e amá-los, para que eles também tenham sua reserva de amor no coração, e possam sair por aí repartindo suas coisas boas."

É tudo que tenho tentado. É tudo que tenho feito. E é tudo que, surpreendentemente, mais me faz feliz. A felicidade não se compra... It's a wonderful life !!!
O retorno, o repuxo, o caminho reverso.
O outro lado da moeda, a outra face da medalha.
A trilha oculta nas sombras, à margem das árvores douradas.
Assim vou andando pelo mundo, estranho mundo de estranhas pessoas,
Estranhos pensamentos limitados, cabendo todos dentro de um mesmo esquadro.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Se tendes medo de por abaixo os muros
Se o frio do pavor lhe freia os sentidos
Se sentes a mão pesada do destino
Aprisionando seus caminhos com sentenças imutáveis
Ah, companheiro !!! Estás perdido. Estás definitivamente perdido
No abismo da segurança eterna
Mergulhado para sempre no conforto sereno da mesmice
Nas águas paradas das certezas que jamais se abalam.
Desconstruir é preciso, sim, viver também é preciso.
Viver só se torna possível
Da maneira mais plena e deleitosa
Se a coragem nos impele a fazer cair por terra
Todas as máscaras, todas as certezas, todas as verdades
Absolutas que nos norteiam o pensamento.
Pois que seguir sempre o mesmo rumo é seguro,
É sólido, é tranqüilo,
Mas ao mesmo tempo nos mantém
Cativos eternos da monotonia.
E é essa mesma monotonia e calma,
Essa mesma serena forma sempre igual de viver
Que nos traz a morte ainda em vida,
O pesar dos atos não cometidos,
A derrocada definitiva dos sonhos,
Dos anseios, da esperança.
Que resta mais a esperar
Se a vida já se mostra tão perfeita ?
Que resta mais a sonhar
Se aparentemente tudo possuímos ?
Não, desconstruir é preciso.
Demolir é preciso.
Arrancar as folhas mortas,
Varrer para sempre a poeira do tempo.
Tornar-se árvore nua, mas de grossa e firmes raízes.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Kaos.
Confusão.
Momentâneo desnorteio.
Indecisão quanto aos sentimentos e certezas.
O mundo oscila, em velocidade vertiginosa.
Caem os castelos de cartas, espalham-se no ar.
A vida se fragmenta, se fatia, se perde e se desconstrói.
Momento incerto, inseguro, dias de vendaval.
Nada é como parece, nada é o que parece... Tudo é ilusão e bruma.
Em meio às sombras me perco, em meio às sombras me engano.
Erro o caminho, tateando no escuro.
Erro o alvo, erro o julgamento, errôneas percepções.
Balança em fúria louca tudo o que havia conhecido.
Sacodem-se desabaladamente todas as verdades.
A decepção torna-se ela mesma uma ilusão.
O medo e o fracasso tornam-se poeira cósmica.
A solidão se cria em meio ao caos,
Amparada pela imensa sensação de desamparo.
Tudo o que era sólido se desfaz no ar.

domingo, 15 de junho de 2008

Quando eu morrer
Que não haja lágrimas a correr,
Mas sim o som cristalino
De muitas risadas.

Quando eu morrer
Espero que a chuva caia serena
E lave de forma abençoada
A terra onde eu estiver.

Quando eu morrer
Quero que me plantem uma roseira
De belas rosas vermelhas
Rubras da paixão que abrigo em mim.

Quando eu morrer
Que eu tenha deixado sementes
Sementes de amor, de paz, de esperança
Em cada coração que conquistei.

Quando eu morrer
Que eu seja lembrada
Não como alguém que se foi,
Mas como uma presença que ficou.

Quando eu morrer
Não quero me desintegrar
Quero virar estrela
E brilhar para sempre.

sábado, 14 de junho de 2008

As lágrimas, novamente as lágrimas.
Rolando grossas, salgadas e abundantes sobre a face.
Lágrimas do sentimento de abandono, de inquietude,
De exaustiva e solitária angústia.
Tudo o que eu não precisava era estar sozinha hoje.
Não hoje, não nesse momento de incerteza,
De estranhamento, de dor, de sentimentos tão confusos.
Mas o mundo infelizmente não abunda em sensibilidade.
Antigamente eu me perguntava como era possível que alguém chegasse a um limite extremo de desespero e dor sem que ninguém percebesse.
Me perguntava se era possível que não houvessem sinais externos, que não existissem pistas.
Hoje sei que por mais que você dê as pistas, mostre o mapa, sinalize e aponte em neon, a verdade é que ninguém percebe.
Me interessava saber como alguém conseguia se atirar da janela de um prédio sem que ninguém desconfiasse das suas intenções.
Hoje sei que é muito mais cabível que ninguém, absolutamente ninguém, desconfie.
As pessoas se fecham nelas mesmas, e não enxergam mais nada ao seu redor.
Se ocultam em suas conchas, se trancam em seus pequenos mundos e nada mais lhes importa, senão suas próprias histórias, seus próprios problemas e suas próprias dores.
A dor do outro não lhes interessa. O sentimento do outro não lhes diz respeito.
Diálogos típicos:

"- Hoje estou péssima.
- A-ham. Hum. Você não sabe o que me aconteceu hoje !"

( não sei nem me interessa, mas se você esperar eu tomar esse copo de cicuta terei prazer em saber )

"- Ando meio deprimida.
- Ah, tá. Escuta, o que dou pro meu gato, ele está meio resfriado..."

( sorte que amo gatos, senão a resposta seria: que morra !!! Daí aproveito e vou junto )

"-Às vezes eu queria sumir.
- Ah, para de falar besteira. Que tal irmos lanchar ?"

( realmente, sou uma besta em te contar isso, e comida cura tudo. A atenção de uma amiga naturalmente não teria o mesmo efeito )

Triste constatar que essa é a regra geral no mundo em que vivemos.
Triste perceber que essa é a regra geral no nosso mundo, aquele formado pelas pessoas que amamos e com as quais convivemos.
Mais triste ainda saber que, por mais que você sangre por dentro até a morte, ninguém irá lhe socorrer.
Não vai aparecer ninguém para estender a mão. Ninguém para se preocupar... Simplesmente porque ninguém consegue enxergar o que se passa.
As pessoas, mesmo as mais amadas, não conseguem olhar além de seus próprios umbigos.
Estão sempre preocupadas com suas próprias vidas. Estão sempre se priorizando em detrimento de qualquer outra coisa, priorizando-se em todos os minutos, todos os dias, todos os anos.
Estão sempre sem tempo para ouvir com o coração e para aconselhar com a alma.
Estão sempre distantes demais para poder ver além das aparências, além dos sorrisos, além da voz ao telefone.
Sim, eu sou uma estrangeira nesse mundo.
E a inutilidade de escrever o que escrevo é imensa - ninguém jamais lerá mesmo.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

O treze
O tudo, o belo
O maravilhoso, o mágico
O sereno, o poderoso
A misteriosa perfeição
A sintonia, a completude
O recomeço, o despertar
A transformação
O início de um novo ciclo
O renascimento
A transmutação.
A vida é assim, chegada e partida.
Partidas inesperadas, que nos cortam o ar e nos tiram o chão.
Partidas que não esperamos, que não desejamos, que jamais sonhamos.
Partidas bruscas, incisivas, que rasgam o véu do mundo real.
Partidas com as quais não contamos, que viram tudo do avesso - e fica tudo fora do lugar.
Partidas que estranhamente aproximam as pessoas, as tornam mais unidas.
Partidas que apesar de dolorosas nos tornam mais humanos.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Tantas tardes na memória.
Sorrisos, risadas altas, exclamações e sussurros.
Segredos trocados à luz da TV, fotos mostradas entre pequenas histórias.
Vidas passando entre os dedos, formando uma teia entre nós.
Teia que nos tornava unidas, teia que entrelaçava tristezas e alegrias.
Fios que se engrossavam e fortaleciam em curto espaço de tempo,
Temperados pelo poder das confidências, das palavras, dos sentimentos.
Verdades absolutas que se tornavam pó, renovação do espírito em cada novo encontro.
A cada encontro, uma mistura de lágrimas e saudades, de felicidade e de sonhos.
Olhar para trás, pensando no que estava por vir.
Medo do que estava por vir.
Tantas tardes na memória.
Tantas manhãs regadas à pêlos e raios de sol.
Raios luminosos forrando o azul claro do céu dos seus olhos.
Raios que coriscavam furiosos em tempestades, quando contrariada a sua vontade.
Raios que atravessavam distâncias, e corriam velozes para meu coração,
Onde quer que eu estivesse.
Comunhão absoluta, cordas de seda trançando nossas vidas.
As mensagens trocadas todos os dias, várias vezes ao dia, as cartas, os telefonemas sempre tão longos.
Havia tanto a ser dito.
Havia tanto sempre.
Os almoços no pequeno restaurante, as pequenas compras na loja barata, os resgates, o manso desenrolar de uma amizade tão forte.
Os pedaços dos nossos passados se misturando ao farelo das empadas comidas entre histórias.
E como você as contava com tanta graça, leveza e acima de tudo humor.
Esse teu bom humor que fazia com que tivesse quase que uma aura de santidade,
Para os tantos que a amaram.
E foram tantos, tantos...
Embora tão poucos tenham permanecido ao seu lado, quando o pior começou.
Tantas noites na memória.
Pequenas discussões, rasgos logo consertados, pois o mais importante jamais se rasgava:
Respeito, tolerância, compreensão.
Compreensão que buscávamos tanto então, e que só conseguíamos quando entre nossos pares,
Pessoas como nós, que amavam animais quase acima de si mesmas.
Pessoas especialmente abençoadas, mas malvistas por quase todos os que as cercavam,
Vistas como loucas pela imensidão de pequenos e tolos pobres de espírito.
Lembro do quanto isso a deixava revoltada, e ao mesmo tempo extremamente magoada.
Do quanto amava seus irmãos e irmãs, e do quanto te fazia mal saber o quão mal a julgavam.
Julgamento que se fez mais vívido depois da tua partida, quando, mesmo morta, te despojaram de tudo o que tinha de mais importante, de tudo o que havia te sido caro.
Mas quebraram a lembrança do que era físico.
Tua essência e alma são inquebrantáveis.
Ah, que falta que você me faz.
Que falta enorme de tudo o que havia ainda para ver, de tudo o que havia ainda para contar, de tudo o que havia ainda para viver.
De tudo o que você ainda queria fazer, ser, pensar, conhecer.
Que falta enorme das viagens que não fizemos juntas, dos brownies que não dividimos, da visita ao Zôo que nunca fizemos.
Que falta enorme dos biscoitos comidos no café ligeiros, da comida chinesa que adorávamos pedir, e que sempre sobrava no teu prato para agradar um gato.
Que saudade de ver teu sorriso, te encher de elogios e te ouvir me chamar de exagerada.
Que saudade de dizer como eram lindos teus olhos azuis quando você se sentia a mais feia das criaturas.
Que saudade de ouvir tua voz, sotaque paulista que aprendi a amar tanto, e que continuo amando em cada nova amiga que conquisto nestas terras.
Que saudade da tua alegria, e ao mesmo tempo, do teu lado sombrio.
Que saudade dos últimos instantes juntas, lágrimas grossas derramadas num último abraço.
Unicórnio azul pontuando a esperança de um reencontro em outras vidas.
Que saudade enorme de ti.
Que falta que você me faz.

domingo, 8 de junho de 2008

Difícil conseguir extirpar uma parte do seu passado.
Difícil banir de sua vida em definitivo algumas pessoas.
Hoje a lembrança veio forte, inesperada, desesperada,
Transformada em lágrimas que não paravam de cair.
Lágrimas de saudade, de tristeza, de um desesperado sentimento de urgência.
Estava sem pensar em nada, e de repente, como um furacão,
A força da lembrança me arrebatou,
Enchendo meus olhos de gotas salgadas,
Tremendo minhas mãos, abalando minhas certezas,
Deixando meu coração no chão,
Arrasado, devastado, apavoradamente sufocado.
Como matar o que não quer morrer ?
Como destruir o que se fez indestrutível ?
Como seguir fingindo ignorar o que é tão forte, tão inabalável,
O que não se consegue apagar da memória ?
Não, não sei se quero que se apague,
Não sei mais se quero que sufoque,
Não sei mais se quero por abaixo tudo o que sentia,
Não sei mais se quero a dor do afastamento, a máscara da indiferença...
Não sei mais se quero ser quem sou.
A luta contra o mal.
Lutar contra aquilo que mal se conhece.
Lutar contra o desconhecido conhecido que vem de dentro de nós.
Lutar contra a incompreensão, as palavras que ferem como fogo.
Lutar a infinita luta pela vida.
Batalhas sombrias, batalhas amargas.
Batalhas de morte inglória, batalhas de tantas glórias.
Guerreiras somos, guerreiras despertas pela força da fúria,
Pelo poder do fogo, pelo aço e pela chuva.
Guerreiras que deixam cair lágrimas sólidas, amargas, lágrimas escondidas
Na solidão da madrugada.
Lágrimas que rolam queimando a face como o fogo do dragão.
Ah, o dragão...
Sempre um em cada virada do caminho, dragões a cada curva da estrada.
Mas guerreiras somos, guerreiras meninas...
Guerreiras que de mãos dadas caminham
Em estradas separadas
Unidas pela poeira das estrelas.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

O ar de superioridade estúpida de algumas pessoas me irrita profundamente.
O se achar acima de tudo e de todos, o se achar o melhor dos melhores, o se achar o único ser pensante do universo.
O se colocar na posição de estátua de deus intocável, o se achar dono da verdade.
O não aceitar outras verdades, o não entender o pensamento alheio.
E acima de tudo a não compreensão da dimensão e grandeza de cada vida que o circunda.
O ar de falsa inteligência, de falsa virtude, a hipocrisia e a demagogia.
A falta de empatia com as pessoas, a falta de compaixão com quem sofre, a falta de amor ao próximo.
A falta de humanidade, o distanciamento das misérias do mundo,
A futilidade, a mesquinharia, a imbecilidade de manter as aparências.
O estranho hábito de cultivar tudo o que é aparente, mundano e passageiro.
O privilegiar o conteúdo à forma, o distanciamento do que nos torna mais humanos.
A pedra no lugar do coração.

Um sonho estranho.
Nele, crio uma serpente, encontrada ferida e sozinha no mato.
Cuido dela, crio, ela me tem afeição verdadeira e jamais me morderá.
Mas a serpente dá crias, e as crias não me tem o mesmo amor nem a mesma gratidão. Atacam sem piedade, sou obrigada a me defender.
Que sentido teria isso ?
Só consigo pensar no ditado espanhol:

Cria cuervos e te sacarán los ojos

Cria corvos, e estes te arrancarão os olhos.
Resta saber quem são os corvos.
E a serpente original.
Há pessoas que você conhece a vida toda e não te dizem nada.
Há outras que você acaba de conhecer e já te dizem tudo, são almas que se tocam, mundos que se completam.
Há pessoas que você tenta desesperadamente gostar um pouquinho que seja, e não consegue.
Há outras que você não precisa fazer o menor esforço, quando vê já está conquistada.
Há pessoas com as quais dividimos nosso espaço há anos, mas nunca se tornam importantes na nossa vida.
Há outras que mal chegam ocupam todos os espaços, inclusive dentro do nosso coração.
Há pessoas que fundamentam, que lançam bases e depois se perdem no tempo.
E há as que são fundamentais e essenciais para a vida inteira, fazendo-se presentes todos os dias.

segunda-feira, 2 de junho de 2008


Duas grandes amigas, duas grandes lições.
Com uma, aprendi que só se deve amar e entregar seu coração a alguém depois de se ter dividido um saco de sal. Sim, porque dividir o bolo delicioso e doce é fácil, dividir os momentos de alegria, prosperidade e festa também. Mas dividir o sal que racha os lábios e resseca a garganta não é para qualquer um, assim como não é qualquer um que permanece ao nosso lado nos piores momentos, quando o chão parece se abrir e o desespero ameaça tomar conta.
Com outra, aprendi o paradoxo das prioridades, a enxergar a real necessidade e o que é verdadeiramente mais importante. Aprendi que mesmo sem ter um tostão sequer no bolso é possível socorrer um amigo, abrigar um animal, realizar um sonho... Mesmo tendo que, para isso, abrir mão de pagar uma dívida, de viajar pelo mundo, de um dia de lazer. Aprendi a dar importância ao que realmente é importante: a vida. Aprendi que nada é mais fundamental do que o amor que se tem, o conforto de um sorriso, o prazer da companhia de quem se ama.
E com esses dois pilares, tenho tentado seguir, lembrando sempre que o caminho é cheio de armadilhas e ilusões, mas também é marcado pela presença de incontáveis minutos de felicidade, basta saber aproveitar.
Vamos comemorar a lavagem dos confins da alma
A lavagem que empurra para longe as falsas amizades,
Os falsos testemunhos, os castelos de cartas, as ilusões perversas.
Vamos atirar ao mar a mesquinharia e a prepotência,
A incompreensão, a mesmice e a demência.
Vamos jogar fora tudo aquilo que arranha como um espinho incômodo,
Todos aqueles que nos fazem mal, todo o mal que nos fizeram.
Vamos deixar na rua a amargura, as frustrações da vida,
A impotência, a desilusão e o orgulho ferido.
Vamos esquecer as injustiças, despejar no lixo o que é dejeto,
Tirar do nosso peito toda a maldade humana e a falta de afeto,
Quem não nos merece, quem nos desmerece, quem nos julga pelas aparências,
Pelas posses, pela linguagem, quem não privilegia o conteúdo e sim a forma.
Tolos são, malditos sejam, esquecidos para todo o sempre, pelo resto de nossos dias.
Vamos deixar a alma limpa, clara como a luz do amanhecer.
Esquecer quem fomos, nos unir aos bons, reconstruir os sonhos.
Viver o hoje, o agora, deixar para trás o que passou, só dar valor a quem de fato merecer.

Hoje contemplei o nada
Vestido de suave pelagem cinzenta.
Hoje contemplei o nada em sua dimensão mais cruel:
O fim daquilo que há bem pouco era tudo.
O nada avassalador que esvazia os corpos,
Que elimina o bater do coração e a vivacidade da alma.
O nada que gela o sangue nas veias,
O nada que congela o nosso próprio coração ao ser contemplado,
E que o atravessa como um punhal.
O nada ali estendido, em sua frágil condição de ser que já não é.
O vazio absoluto, o caos, a imensidão negra.
Inexplicável, devastador, definitivo.
O nada que toma estranha vida nova, nas lágrimas, nos lamentos,
O nada que se incorpora ao nosso corpo como uma sombra,
Um desgostoso parasita que finca suas unhas no peito,
E aperta com sua teia todos os nossos sentidos.
Eu vi a cara da morte e ela estava viva.
Annya parou de repente, e olhou o mundo ao seu redor.Tanta violência e guerra, tanto desespero, tantas mortes sem sentido.Tantas vidas desperdiçadas. Tantas lágrimas, tantas tristezas, tanta maldade. Em cada esquina, o crime acontecendo. Em cada parque o abandono de centenas de animais. Em cada minuto, uma infinita possibilidade de novos desesperos.Sentiu-se subitamente sem fôlego. De que adiantava viver em um mundo assim ? De que servia estar viva e ter um coração dotado de sensibilidade e capacidade de amar ? Para quê ? Apenas para sofrer mais ? E era um sentimento tão solitário... Todos estavam ocupados demais com suas próprias vidas, ninguém olhava para os lados. Ninguém a entendia, nem mesmo seus amigos, nem mesmo sua família. Chamavam-na de sonhadora, visionária, louca. Diziam-lhe que era pura perda de tempo se preocupar. Que eram sem sentido e inúteis seus esforços. Annya não se importava com a incompreensão ou com as críticas. Estava acostumada. Mas se sentia profundamente incomodada com a falta que lhe fazia ter ao lado alguém com os mesmos ideais, a mesma paixão, a mesma sensibilidade, a mesma capacidade de amar sem limites. Sentia todo o peso do seu trabalho solitário. Sentia, como o poeta, ter apenas duas mãos e o sentimento do mundo. Sentimento do qual obviamente não dava conta. Suas mãos eram muito pequenas, e o mundo imensamente grande e cheio demais de incertezas e de pesares. Annya sentia-se sem chão.
Duas mãos são realmente muito pouco para suportar o mundo... Mas algumas mãos, quando unidas, têm poderes inimagináveis. Tornam não só mais fácil caminhar e lutar contra o lado ruim da vida, como também suavizam as dores inevitáveis que surgem: perdas, tristezas, decepções... Nossas mãos, UNIDAS, podem muito. Podem até o improvável.